Por Associação Protetora dos Desvalidos (SPD)
Há datas que não apenas marcam o calendário. Elas convocam a memória. E a memória, quando preservada e disputada, torna-se um poderoso instrumento de liberdade.
Neste 21 de junho, celebramos o nascimento de duas das maiores inteligências que o Brasil produziu: Luiz Gama e Machado de Assis. Dois homens negros, filhos de um país escravista, que desafiaram as estruturas de seu tempo e deixaram marcas definitivas na história nacional. Ao fazê-lo, reafirmamos também uma convicção que acompanha a Associação Protetora dos Desvalidos há 193 anos: não existe futuro possível sem a preservação da memória do povo negro.
Se hoje a SPD elege a preservação da memória como uma de suas principais bandeiras, é porque compreende que o esquecimento sempre foi uma tecnologia do racismo. Apagar trajetórias, embranquecer personagens históricos e silenciar protagonismos faz parte de um projeto político que busca negar à população negra o direito de reconhecer-se como sujeito da própria história.
Por isso, celebrar Luiz Gama é um ato de reparação.
Nascido livre em Salvador, em 1830, vendido ilegalmente como escravizado ainda criança, Gama alfabetizou-se praticamente sozinho, conquistou sua própria liberdade e transformou o conhecimento em arma contra a escravidão. Mesmo impedido de exercer formalmente a advocacia, tornou-se um dos maiores rábulas da história brasileira, utilizando as brechas da legislação imperial para libertar centenas de pessoas escravizadas e enfrentar juridicamente um sistema construído para manter negros e negras em cativeiro.
Mas reduzir Luiz Gama ao brilhantismo jurídico seria insuficiente. Ele foi jornalista, poeta, intelectual, articulador político e um dos primeiros grandes formuladores de uma consciência negra no Brasil. Sua escrita denunciava o racismo, satirizava as elites escravocratas e afirmava a humanidade daqueles que insistiam em tratar como mercadoria.
Muito antes de a abolição tornar-se uma política de Estado, Luiz Gama já fazia da palavra e da justiça instrumentos de insurgência. Sua vida nos lembra que a liberdade nunca foi uma concessão: ela sempre foi conquistada pela luta organizada do povo negro.
Essa compreensão dialoga profundamente com a própria origem da SPD. Fundada em 1832 por homens negros livres, muitos deles egressos da Revolta dos Malês, a Associação nasceu como um espaço de solidariedade, proteção mútua, autonomia econômica e organização política diante de um Estado que negava cidadania à população negra. Em diferentes tempos, mas sob a mesma estrutura de opressão, Luiz Gama e a SPD construíram respostas semelhantes: organização coletiva, dignidade e resistência.
Celebrar sua memória é reconhecer que há uma longa tradição de inteligência política negra sustentando este país.
Ao lado de Gama, este mesmo 21 de junho também nos convida a reverenciar Machado de Assis.
Por décadas, uma leitura embranquecida de sua imagem e de sua obra tentou afastá-lo de sua identidade racial, como se o maior escritor da literatura brasileira precisasse ser despido de sua negritude para ocupar o lugar de gênio nacional. Retratos foram alterados, fotografias retocadas e interpretações críticas insistiram em tratá-lo como uma figura neutra, quase sem corpo, quase sem origem.
No entanto, Machado de Assis era um homem negro, filho de uma lavadeira negra e de um pintor mestiço, nascido no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro escravista. Sua trajetória de ascensão intelectual ocorreu em meio às profundas desigualdades raciais do século XIX, e sua escrita sofisticada jamais esteve desconectada das contradições sociais de seu tempo.
Reconhecer Machado como intelectual negro não reduz sua universalidade; ao contrário, amplia nossa compreensão sobre a potência criativa da população negra brasileira e confronta um processo histórico de apagamento promovido pela branquitude. Sua genialidade não aconteceu apesar de sua negritude. Ela também foi forjada a partir das experiências, observações e estratégias de sobrevivência de quem conhecia intimamente uma sociedade estruturada pela hierarquia racial.
Ao reunir Luiz Gama e Machado de Assis nesta mesma celebração, afirmamos que a memória negra brasileira é plural. Ela se escreve nos tribunais e nos livros, nas ruas e nas associações, na poesia, na política, na imprensa, na solidariedade e na luta cotidiana pela dignidade.
A Associação Protetora dos Desvalidos chega aos seus 193 anos reafirmando que preservar a memória é preservar caminhos. É garantir que novas gerações conheçam aqueles que abriram possibilidades de existência antes mesmo que a liberdade fosse reconhecida como direito.
Porque um povo que conhece seus próprios heróis não aceita voltar às correntes.
Porque lembrar Luiz Gama é lembrar que a justiça pode nascer da coragem.
Porque reconhecer Machado de Assis como homem negro é recusar o apagamento que insiste em embranquecer nossas referências.
E porque defender a memória é, desde 1832, defender o futuro.