A Associação Protetora dos Desvalidos se soma ao clamor por justiça no caso de Davi Fiúza, jovem negro desaparecido há quase 12 anos após uma ação policial no bairro de São Cristóvão, em Salvador. Desde então, Dona Rute foi condenada a sobreviver entre a ausência, a dor e a violência permanente de um Estado que até hoje não respondeu: onde está Davi Fiúza? A audiência marcada para o próximo 25 de maio não pode ser tratada como mais um rito burocrático. Ela representa a luta de uma mãe negra contra o silêncio institucional e contra a política de morte que segue operando nas periferias brasileiras.
O desaparecimento de Davi Fiúza não é um caso isolado. É parte de uma engrenagem histórica sustentada pelo racismo estrutural e pelo potencial letal do Estado brasileiro contra a população negra. Jovens pretos seguem sendo tratados como inimigos internos, alvos permanentes de uma política de segurança pública construída sobre a lógica colonial do controle, da violência e do extermínio. O mesmo Estado que falha em garantir direitos é extremamente eficiente quando decide perseguir, encarcerar ou matar corpos negros.
Há quase 12 anos, Dona Rute não pode abraçar seu filho, celebrar sua existência ou sequer viver o direito básico ao luto. O desaparecimento forçado de Davi é uma violência continuada, que se renova todos os dias diante da ausência de respostas concretas e da lentidão das instituições. Quando o Estado desaparece com um jovem negro e não apresenta respostas à sociedade, o que está em curso é a naturalização da barbárie contra a comunidade preta.
A Associação Protetora dos Desvalidos reafirma que enfrentar o potencial letal do Estado é uma tarefa urgente para qualquer sociedade que se pretenda democrática. Não existe democracia plena enquanto mães negras continuarem enterrando seus filhos, procurando seus desaparecidos ou sobrevivendo sem respostas. Justiça para Davi Fiúza é também justiça para milhares de famílias negras atravessadas pela violência estatal neste país. Davi Fiúza precisa ser encontrado. Os responsáveis precisam responder. E o Estado brasileiro precisa parar de operar como máquina de produção de morte da juventude negra.
Lígia Margarida
Presidenta da Associação Protetora dos Desvalidos